Práticas participativas no Museu da Imigração

Por Mariana Esteves

Uma das premissas que definem um museu é que ele esteja “a serviço da sociedade e do seu desenvolvimento”, de acordo com o ICOM. Mas para serem de fato socialmente relevantes, os museus precisam estar abertos ao diálogo. Precisam se sentir parte da sociedade em que estão inseridos e se relacionar com suas comunidades. Precisam ser vistos como agentes, ferramentas, possibilidades e, principalmente, intermediadores. Precisam reconhecer que o conhecimento não precisa ser construído somente por suas equipes, mas também com variados interlocutores. Precisam dar real acesso a seus acervos, pesquisas e programações. Enfim, precisam estar abertos para compartilhar decisões, o que não é uma tarefa fácil.

O viés escolhido pelo Museu da Imigração para trabalhar seu tema foi o da experiência, perpassando trajetórias de grupos e histórias de vida, no passado e no presente. Assim, nos últimos anos temos privilegiado propostas de exposições que tratem de vivências a partir de contextos mais amplos – como as visões e os anseios de migrantes contemporâneos (“Cartas de Chamada (de Atenção)”, 2015); o impacto do Estatuto do Estrangeiro na vida de migrantes no Brasil e a busca pela ampliação de representatividade política (“Direitos migrantes: nenhum a menos”, 2016), e que tenham como eixo estrutural algum tipo de participação.

A mais recente das exposições foi “Migrações à mesa” (2016-2017), que nasceu da compreensão do papel que a comida tem como índice de memória, compartilhamento de heranças culturais e meio de subsistência. O Museu já vinha trabalhando esse tema em seus projetos de História Oral, na Festa do Imigrante e nas oficinas Temperos do Mundo; por isso, entendemos que, em termos de trajetória institucional, falar de comida era uma vocação, e por isso investimos em uma exposição a esse respeito.

A partir de uma chamada em redes sociais, selecionamos dez cadernos de receitas (e, assim, dez histórias familiares) que ligavam esses objetos ao tema das migrações. À princípio a ideia era trabalhar aspectos gerais e transversais que colocasse esse material em diálogo, assim como nosso acervo ligado a culinária. Mas após as primeiras entrevistas com os participantes, ficou clara a potência de cada uma e que realizar uma abordagem aprofundada, e não mais panorâmica, enriqueceria o projeto.

Assim, voltamos às famílias com essa nova proposta e pedimos para cada uma fizesse uma pequena curadoria dos conteúdos a serem expostos. Oferecemos um espaço próprio na exposição (composto por uma parede e uma vitrine) e pedimos que essa seleção se restringisse a fotografias, documentos pessoais e acessórios de cozinha, para que houvesse uma similaridade visual e conceitual entre elas. O Museu não interferiu nas escolhas e cuidou para que cada história estivesse representada da forma mais próxima à narrada pelos participantes.

Já a ideia original – de tratar de aspectos gerais e transversais a partir das experiências especificas – foi trabalhada em uma grande mesa central, que articulava os seguintes temas pensados a partir da leitura de todos os cadernos de receita selecionados: “O que pode ser um caderno de receita?”, “Medidas”, “Equipamentos e utensílios”, “Ingredientes”, “Culinária paulista” e “Questões de gênero”. Esses temas foram desenvolvidos em diálogo com peças de nosso acervo, muitas delas com históricos desconhecidos (o que fragiliza, em certa medida, sua vinculação com a experiência migração). Desse modo, conseguimos ressignificar e dar visibilidade a esses objetos, a partir das experiências de vida das dez famílias participantes.

Outra prioridade desse projeto foi que todo o material produzido para a exposição fosse disponibilizado publicamente, de forma ampla e irrestrita, na plataforma Wiki. Para isso foram organizados os conteúdos, fotografadas as peças de nosso acervo e feita a inserção das imagens e seus respectivos dados no Wikimedia Commons. Essa operação não foi feita com os objetos das famílias, por se tratarem de empréstimo.

Acreditamos que esse investimento na disponibilização pública de acervos e pesquisas usando plataformas Wiki– aliás, pioneiro no campo dos museus brasileiros – é o que completa a relação do MI com as comunidades. Isso porque gerar conhecimento por meio de recursos livremente acessíveis, como foto e dados, é um de nossos papéis sociais mais importantes. Entendemos ainda que disponibilizar esse conteúdo é não só obrigação, mas garantia do cumprimento dessa função (ainda mais se tratando de um processo de participação). Também porque entendemos que, para dividir responsabilidades, é preciso que ambos os interlocutores tenham repertório a ser trocado ou problematizado.

Assim, conhecer experiências pessoais e comunitárias, ainda não representadas em nosso acervo, bem como ressignificar e dar conhecimento sobre patrimônios e processos da instituição são duas pontas que se conectam, se completam e nos tornam relevantes para as comunidades com as quais nos relacionamos.

Mariana Esteves

Coordenadora técnica do Museu da Imigração de São Paulo

Mariana Esteves, coordenadora técnica do Museu da Imigração de São Paulo. Crédito: Thâmara Malfatti
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