COMCOL Brasil

Comitê Internacional do ICOM para o Desenvolvimento de Coleções

O tempo presente nos museus

O presente é, em vários casos, muito mais fácil de ser vivido do que ser compreendido em seu todo. Na atualidade, em que somos inundados por dados e nos apropriamos diariamente de informações vindas de vários lugares do mundo, é um exercício complexo interpretar o que está mudando, o que vai permanecer e quais as direções que tomaremos. No que nos transformaremos enquanto humanidade, enquanto grupos políticos e culturais, enquanto agentes do nosso tempo. A velocidade é absurda e o tempo parece sempre escasso.

Os museus não ficam imunes a esse olho de furacão. Podemos entendê-los como instituições com profundas raízes no tecido social e que, por isso mesmo, são impactadas e influenciadas pelo que acontece. Às vezes, vemos reações rápidas, como o caso dos museus estadunidenses que, em protesto às últimas ações do governo Trump, retiraram de suas galerias obras produzidas ou doadas por imigrantes para demonstrar o quanto ficam vazios sem essa contribuição[1]. Ou, ao contrário, recolocaram em seus espaços obras realizadas por artistas mulçumanos, mostrando o quanto eles e suas produções são igualmente importantes para se entender a arte contemporânea e a própria cultura daquele país[2].

Porém, muitos  não reagem imediatamente aos movimentos de transformação, de tensões sociais e políticas ou de grandes mudanças comportamentais, por muitas razões. Dessa forma, os museus nos mostram que possuem seu próprio tempo de processar o presente. E suas coleções acabam sendo formadas a partir desse tempo, representando as escolhas feitas em momentos diferentes daqueles em que os bens culturais foram produzidos. É claro que esse movimento sempre existiu dentro dos museus – o distanciamento, no tempo e às vezes no espaço, daquilo que se coleciona. Mas não nos esqueçamos que o contexto atual é veloz, voraz e fluído.

Isso tudo nos leva a perguntar que retrato teremos do nosso presente daqui a alguns anos, considerando que nem tudo o que acontece agora estará disponível no futuro para quando um museu decidir colecionar algo que lhe represente. Ou seja, os museus, instituições que têm como matéria principal o tempo (ou a memória que se constrói sobre o tempo), podem começar a ficar sem ele. Um exemplo disso bate à nossa porta: como os museus brasileiros têm abordado o nosso contexto político atual? E como têm pensado a preservação da memória atual da nossa história? Devemos preservar bens relativos às manifestações populares? Não devemos preservar nada? Por que sim? E por que não? E como fazer ambas as coisas de forma responsável, responsiva e ética perante a sociedade e ao futuro?

Um caso interessante que aconteceu recentemente na Noruega, e que menos responde e mais contribui com a discussão, é o do projeto Collecting Digital Photography[3]. Preocupados com o crescente esvaziamento das coleções de fotografia, devido ao advento das imagens natudigitais que acabam não chegando aos acervos, os museus do condado de Rogaland decidiram entender melhor o que está acontecendo com os hábitos de registro das pessoas. A pesquisa teve financiamento do Arts Council da Noruega e apontou diversas tendências possíveis para que os museus locais passem a colecionar fotografias e outros materiais digitais daqui em diante. Contudo, o principal resultado da pesquisa foi justamente o reforço para que os museus estejam atentos ao colecionismo de fotografias produzidas no presente.

Talvez seja essa uma das poucas constatações que podemos ter certeza a respeito do presente: que ele está aí, queiramos nós ou não, gostemos dele ou não. E os nossos museus, uma hora ou outra, precisarão lidar com essa realidade.

 

perfil

Juliana Monteiro

Museóloga e membro do COMCOL

 

Referências

[1] Fonte: https://catracalivre.com.br/geral/cidadania/indicacao/museu-nos-eua-retira-obras-de-imigrantes-em-protesto-contra-trump/

[2] Fonte: https://www.guiadasartes.com.br/noticias/moma-expoe-obras-de-artistas-muculmanos-em-protesto-contra-decreto-de-trump

[3] Fonte: http://collectingsocialphoto.nordiskamuseet.se/

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