COMCOL Brasil

Comitê Internacional do ICOM para o Desenvolvimento de Coleções

Mulheres fora da parede

O que Barbara Jatta, uma historiadora da arte contemporânea, e Artemísia Gentileschi, uma artista do período barroco, possuem em comum?

Uma primeira resposta, mais simples, é que as duas são italianas. Barbara Jatta foi recentemente nomeada pelo Papa Francisco para assumir a direção dos museus do Vaticano – um feito inédito e louvável[1]. Artemísia Gentileschi, como dito, foi uma artista brilhante com uma trajetória conturbada, que envolveu estupro e falta de reconhecimento em vida de suas importantes obras[2]. A implosão do feminismo na década de 1970 fez com que sua produção fosse redescoberta e considerada um ícone importante para o movimento.

Mas, indo além de tais fatos, podemos dizer que ambas fazem parte do mundo dos museus sem aparecem nuas em quadros pendurados em paredes solenes, apresentadas ao público sob a assinatura de artistas homens.  E, dessa forma, contribuem para colocarmos à mesa uma questão não menos importante: a grande presença de mulheres (no sentido mais ampliado que essa palavra possa ter) e sua crônica sub-representação no universo dos museus.

Somos a grande maioria de profissionais desta área, no Brasil e fora dele. No nosso país, não temos nenhuma pesquisa conhecida até o momento que questione as razões para tal cenário, mas países como os Estados Unidos realizaram seus próprios estudos recentemente – o que pode nos servir de uma base inicial[3].

Como em outras áreas, tais estudos nos mostram em números o que muitas vezes sentimos na prática: ganhamos menos, somos menos ouvidas, mas somos a maior parte da força de trabalho do setor.

Ocupamos menos cargos de liderança – o que piora, quanto maior o orçamento da instituição, de acordo com a pesquisa de 2014 realizada pela Association of Art Museums Directors/EUA[4]. E, quando ocupamos, sofremos o tempo todo com desconfianças a respeito de praticamente todas as decisões, porque… entre várias razões, somos mulheres. E, claro, nesses casos também ganhamos menos. Pensando no Brasil, quantas diretoras de museus nós temos em comparação com os diretores? Pensando em nossas entidades de representação profissional, como o ICOM, quantas presidentes tivemos nos últimos anos? Nesse contexto, Barbara Jatta é uma excelente exceção.

Além da questão salarial, é válido chamar a atenção também para o fato de que esse abismo de gênero – ou gender gap – é contrário ao que se prega para as instituições museológicas, como bem destacou Nina Simon, do Museum 2.0[5].  Falamos o tempo todo de inclusão, de igualdade de oportunidades de representação no espaço-fórum do museu. De dar voz às minorias (que não são tão minorias assim).

Mas, o que vamos alcançar de fato se as instituições continuam a reproduzir essas desigualdades em suas equipes? E o que nós, profissionais de museus do século XXI, temos a dizer e a fazer sobre isso?

Provocações à mesa, food for thought.

 perfil

Juliana Monteiro

Autoria da imagem: Artemisia Gentileschi – https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=6515625

Referências

[1] http://oglobo.globo.com/cultura/artes-visuais/papa-francisco-nomeia-primeira-mulher-diretora-dos-museus-do-vaticano-20682012

[2] http://www.revistacapitolina.com.br/artista-da-semana-artemisia-gentileschi/

[3] https://www.theguardian.com/culture-professionals-network/culture-professionals-blog/2014/jun/09/gender-museums-sex-equality-director

[4]https://aamd.org/sites/default/files/document/The%20Gender%20Gap%20in%20Art%20Museum%20Directorships_0.pdf

[5] http://museumtwo.blogspot.com.br/2012/09/open-thread-is-gender-imbalance-in-arts.html

Anúncios
%d blogueiros gostam disto: