COMCOL Brasil

Comitê Internacional do ICOM para o Desenvolvimento de Coleções

As coleções e o significado dos objetos

Texto enviado por Maria Izabel Branco Ribeiro, membro do COMCOL no Brasil.

Seja museológica ou particular, composta  por camisas de time de futebol ou  por obras de arte renascentista, integrada por  amostras geológicas ou por itens imateriais como canções ou receitas  tradicionais , o termo coleção, invoca a imagem de  certo número de itens escolhidos, constituindo uma categoria isolada e especial.  A palavra coleção  induz a essa  ideia. Alude  a coletar,  recolher,  juntar, separar, guardar.  Implica em critério,  ordem e é associada a  cuidados especiais.  É distante do sentido de mera acumulação,  mas ainda ressalta a imagem de reunião de  conjunto  integrado por diversos itens.

São várias as definições de coleções e considerações sobre suas características e não há dúvidas que  elas possibilitam estudos  relevantes.  Pesquisar coleções é  analisar uma sociedade, compreender uma época e conhecer sua produção cultural.  Há investigações sobre as características que  definem as coleções, as razões que movem os colecionadores, os processos para conservá-las e acondiciona-las.

Porém proponho aqui algumas reflexões sobre um dos aspectos determinantes  para que um objeto (aqui o termo objeto considerado em sentido amplo, como algo passível de ser colecionado)  seja colecionável:  sua capacidade de significar.

Na maioria das vezes  esses  são bem definidos e  muito relevantes:  ele pode ser belo, precioso, raro,  conter  informações importantes, ser  testemunho de algo ou alguém.  Outras vezes   essa razão é  vaga:  lembra alguém, gosto dele, parece importante para mim, ou   apenas  “faz sentido”.   É frequente que com o passar do tempo, peças comuniquem informações diversas das que originalmente  foram responsáveis por sua integração ao conjunto, ou que  a análise da história de coleções  traga conclusões de relevo, resultando que  os próprios testemunhos também têm narrativas a serem feitas.

O dicionário conta que a palavra em português  “coleção”, teve sua origem  na palavra  latina collectio,  que por sua vez, veio  do verbo  colligere,  que quer dizer:  juntar, reunir, colher, apanhar; mas também:  revistar, ler, explicar e lecionar.[1]

Desse modo, o collectio, não se refere apenas a coletar objetos. É também olhar com atenção para os mesmos,  ler o que apresentam e aprender o que eles têm a ensinar.

O  percurso de algo como item de coleção é portanto definido por sua capacidade de estabelecer sentido. Pelo seu potencial para relatar algo.

Colecionar é estabelecer significados. O ato eleitor de um item para sua integração em uma coleção está relacionada ao  reconhecimento de sua capacidade de significação como relevante.  É eleger  seus  sentidos evidentes e agrupar com demais elementos com que esse “objeto” comunga afinidades.  Ou se preferi r outra abordagem, reunir os itens de mesma  categoria, mas que apresentam pequenas diferenças, de modo que sua reunião seja a possibilidade de complementar a informação sobre o tema escolhido.

Os cuidados com o acondicionamento desse  “objeto”,  sua  guarda e conservação, obviamente buscam  garantir sua preservação, mas também sua integridade  física, de modo que  suas características físicas continuem informando.  A  conservação de sua documentação, de registros legados pela tradição é a garantia de que sua parte imaterial  não se dissolva.  A pesquisa bibliográfica amplia o alcance das informações  que porta.  Confrontar esse objeto com outros da mesma coleção por  meio de operações de comparação ou seriação  é conhecer sua disposição naquele universo.

As informações transmitidas pela coleção superam a  soma dos dados contidos em seus elementos e não anula o  repertório individual de cada um deles.   Os integrantes do conjunto têm a possibilidade de estabelecerem  relações entre si e a cada encontro propor a  emergência de conteúdos. Esses encontros entre objetos resultam em narrativas,  cujas possibilidades de leitura, incluem espaços para interpretações e revisões de acordo com as intenções de seu propositor, repertório do leitor e condições do ambiente.

Coleções respondem perguntas e  dinamizam instituições,  desde que  sejam devidamente questionadas e que haja percepção de suas vozes.

Há coleções estáveis, há aquelas que crescem e as que diminuem. Algumas desagregam, até deixarem de existir fisicamente, porém podem continuar gerando  debates e promovendo conhecimento. Discutir as razões da perda de interesse em um tema,  do  desaparecimento de um conjunto, do  acidente que destruiu um acervo,  ou do impacto cultural de uma coleção jpa inexistente, pode não ser  repisar  temas esgotados. Amiúde  propõem pontos de vistas diferentes para aquelas questões.

A  possível  impermanência material de algumas  coleções,  necessariamente não coincide com o esgotamento de  seu potencial de  produzir significado. Mesmo coleções já desmembradas podem continuar fornecendo informações. A indagação sobre a perda de interesse por algo é tema de estudo de relevância e tangencia aspectos importantes da vida cultural e de seu impacto no grupo social a que se referem.  No caso do estudo de  coleções  que perderam o interesse,  investigar o porquê das alterações sofridas pelo potencial de significação de tais,  já é uma contribuição relevante ao conhecimento não só do universo dos objetos, da dinâmica das coleções mas da cultura em que estão imersas e da sociedade que produz.

 

[1] HOUAISS, Antonio; VILLAR, Mauro Salles. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva. 2001. Pag.758, 1735.

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