Arquivos da Mente: escrevendo o indivíduo de volta na memória coletiva

Por Danielle Kuijten

Duas semanas atrás**, nós abrimos uma nova exposição no Imagine IC, como parte do nosso arquivo de vizinhança, o qual estamos construindo desde 2014. Um arquivo tridimensional onde colecionamos coisas, emoções, histórias e memórias. Neste arquivo nós mostramos, discutimos, compartilhamos e pesquisamos fenômenos da vida urbana que às vezes possuem um grande significado local, mas que frequentemente possuem um significado que pode ser transmitido para o resto de Amsterdam, para toda a região ou mesmo para o país. O arquivo é um experimento contínuo sobre construção de patrimônio e as dinâmicas entre os participantes e os profissionais de museus, sobre encontrar um equilíbrio entre a importância e interesse para os participantes e para os museus.

A última exposição ressalta um momento sensível e doloroso da história do distrito de Bijlmer em Amsterdam. Foi lá que há 25 anos atrás, no dia 4 de outubro, um avião cargueiro da EI-AI caiu sobre os blocos de apartamentos Groeneveen e Klein-Kruitberg. Esse desastre deixou cicatrizes profundas na vizinhança, nas vidas das pessoas que perderam conhecidos, na daqueles que se feriram, que perderem suas casas, que ajudaram ou que ficaram doentes depois. Muitas pessoas que foram afetadas diretamente ou que estiveram envolvidas de uma forma ou de outra, colocaram suas emoções sobre o desastre de Bijlmer em uma ‘caixa’. De forma figurativa, mas também literal. Em alguns casos como um arquivo clássico de papéis e folders, mas também como um ‘arquivo da mente’.

A reunião do material tem sido um processo orgânico de redes pessoais a partir das quais nós estamos coletando. Organizamos uma mesa redonda, aberta a qualquer pessoa interessada e que quisesse compartilhar emoções e experiências. A isto se seguiu muitas entrevistas feitas individualmente onde discutimos o significado das memórias e dos arquivos nos dias de hoje. Foi importante para nós sermos transparentes sobre o conceito de fazer uma exposição com arquivos pessoais, trazendo-os para o diálogo com o público, mas também as coleções institucionais. De que não estávamos fazendo uma pesquisa para jogar uma nova luz sobre o desastre ou contar a história completa do desastre em si em ordem cronológica. A exposição é meramente uma exploração do patrimônio relacionado a ele.

O colecionismo contemporâneo é, então, muito mais sobre caminhos para incluir a documentação das realidades culturais e sociais do presente de uma forma que seja engajadora, ativa, empoderadora e empática. Em nossa metodologia de construção de patrimônio na qual coletamos e exibimos com as pessoas da cidade, nós estamos experimentando conceitos de democratização de patrimônio e de instituição como ativista. Em nossos esforços, nos vemos como participantes tanto quanto as outras pessoas que engajamos e que são externas à organização. Nós não somos o espectador objetivo nem o narrador principal.

Então, se discutirmos o papel dos museus ou das instituições de patrimônio na comunidade, eu olho para o papel do patrimônio na comunidade, como eles – a comunidade – discutem, negociam, fazem, mas também como desconsideram ou mesmo apagam. Isso tudo é relativo a deixar de lado as hierarquias sociais e exclusões estabelecidas pelas instituições, sem se deixar cegar pelo caminho exclusivo que as comunidades inevitalmente também são.

Danielle Kuijten

Coordenadora de projetos & Curadora Imagine IC

Imagine IC documenta e apresenta a vida metropolitana contemporânea e também teoriza sobre este processo de documentar e apresentar. Eles pesquisam e documentam histórias da vida cotidiana na cidade de Amsterdam e do país, em conjunto com  com todos ‘aqueles que estão e todos aqueles que vêm aqui’. Com seu trabalho, eles procuram aumentar a conscientização do significado dos estilos de vida de hoje como uma prévia da sociedade de amanhã, e inovar o conceito e o corpus do “nosso” patrimônio. No Imagine IC colecionar, tanto itens quanto histórias, é um processo em grupo de identificação, anotação e preservação.

 

**O presente artigo foi enviado para publicação no dia 1 de outubro de 2017. Então, a exposição referida foi inaugurada do no final de setembro do mesmo ano.

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